
Sintomas como confusão mental, irritabilidade, cansaço persistente e dificuldade de concentração, frequentemente atribuídos ao estresse da rotina ou a transtornos emocionais, podem na verdade ser indicativos de deficiência de vitamina B12. Este alerta faz parte de um consenso publicado pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), que destaca a condição como comum e capaz de provocar alterações neurológicas significativas, mesmo na ausência de anemia. O reconhecimento precoce do problema é fundamental para evitar complicações potencialmente irreversíveis, especialmente no sistema nervoso.
A vitamina B12, também conhecida como cobalamina, desempenha um papel crucial em processos essenciais para o funcionamento do organismo. Suas principais funções incluem a síntese de DNA, a produção de ácidos graxos, a formação da mielina – estrutura responsável por proteger os neurônios – e a participação em mecanismos ligados ao metabolismo celular, à função cardiovascular, ao sistema imunológico e ao funcionamento cerebral. De acordo com o documento da ABRAN, a deficiência dessa vitamina pode, portanto, provocar manifestações hematológicas e neurológicas que afetam praticamente todo o corpo.
Um dos pontos destacados pelos especialistas é a inespecificidade dos sintomas, que podem ser facilmente confundidos com os de transtornos psiquiátricos, distúrbios do sono ou outras deficiências nutricionais. Irritabilidade, alterações de humor, cansaço constante, palpitações, dificuldade de concentração e a sensação de “mente embaçada” estão entre os sinais relatados por pacientes, mas não são exclusivos da deficiência de B12 e não permitem um diagnóstico isolado. Um caso que ilustra essa possibilidade é o do fotógrafo Fernando Beiral, de 42 anos, que por mais de um ano acreditou estar enfrentando ansiedade e sintomas semelhantes aos da depressão. A descoberta da deficiência de vitamina B12 ocorreu por acaso, durante exames realizados para outra finalidade, e após a reposição da vitamina, ele relatou ter percebido melhora dos sintomas.
O consenso da ABRAN identifica diversos grupos mais suscetíveis ao problema, incluindo vegetarianos e veganos, pessoas com 60 anos ou mais, gestantes, pacientes submetidos à cirurgia bariátrica e usuários de medicamentos que reduzem a acidez gástrica, como a metformina. Embora alimentos de origem animal, como fígado bovino, carnes, peixes, ovos, leite e derivados, sejam as principais fontes de vitamina B12, o consumo regular desses itens nem sempre impede a deficiência. Isso ocorre porque a absorção da vitamina depende de um processo complexo que envolve ácido gástrico, proteínas transportadoras e o fator intrínseco produzido no estômago, com absorção posterior no intestino delgado. A endocrinologista Marcia Helena Costa, doutora pela USP e professora de Endocrinologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), explica que “mesmo pessoas que comem alimentos ricos em vitamina B12, como carnes, peixes, frangos, fígado, leites e derivados, podem ter deficiência, porque depende da absorção. É preciso ter uma absorção adequada.”
A investigação da deficiência de vitamina B12 é recomendada especialmente em pessoas que apresentam anemia macrocítica, sintomas neurológicos, idade avançada, dieta vegana, gestação ou lactação vegana, bebês de mães veganas, infertilidade ou doenças gastrointestinais. O diagnóstico inicial é feito com hemograma completo e dosagem sérica de vitamina B12, sendo que resultados abaixo de 200 pg/mL indicam deficiência estabelecida. Para resultados limítrofes (entre 200 e 300 pg/mL), a recomendação é complementar a investigação com exames como holotranscobalamina, ácido metilmalônico (MMA) e homocisteína. O tratamento consiste na suplementação da vitamina, que pode ser administrada por diversas vias, incluindo intramuscular, subcutânea, oral, sublingual ou intranasal. O documento da ABRAN destaca a crescente evidência favorável ao uso da suplementação sublingual, que se mostrou tão eficaz quanto a aplicação intramuscular na correção dos níveis séricos da vitamina e das alterações hematológicas em crianças com deficiência. Considerando eficácia, segurança e conforto para o paciente, a suplementação por via sublingual pode ser a opção de escolha na maioria dos casos de prevenção e tratamento da deficiência de vitamina B12, mesmo em pacientes com alterações de absorção intestinal.